A escassez de profissionais de enfermagem ameaça a vida das organizações prestadoras de cuidados de saúde e, mais grave, a vida dos cidadãos que a estas ocorrem.
O sucesso de todos os planos de “reforma”, um termo vitima de grande desgaste nos últimos 15 anos, assim como os planos de investimento dos agentes do sector privado/social, no contexto do nosso Serviço Nacional de Saúde, é ameaçado por este factor.
Curiosamente, sondagens internacionais em que se pede ás pessoas que classifiquem as profissões mais prestigiadas começam a atribuir à profissão de enfermagem um lugar entre as cinco profissões mais prestigiadas do mundo ocidental entre investigadores/cientistas, professores, clínicos, assistentes sociais, oficiais do exército ou até bombeiros.
De facto, em diferentes trabalhos do género a profissão de enfermagem distingue-se como uma das profissões a que se atribui um crescente papel de modernização dos cuidados de saúde em completa sintonia com a própria evolução científica da profissão clínica.
Outros estudos, muito mais sérios que as simples sondagens, confirmam a tendência e indicam que a crescente escassez de enfermeiros qualificados experientes aumenta o risco e questiona o sucesso da intervenção das unidades prestadoras de cuidados de saúde. Estão vidas humanas em risco. Estão em risco os resultados do investimento no sector da saúde. Não se trata, porém, do “value for money” mas antes da avaliação dos “outcomes” da intervenção em cada cidadão e utente dos serviços de saúde.
Um dos relatórios que mais impacto teve nesta análise internacional no contexto da investigação em gestão em saúde em que trabalho faz mais de quinze anos, foi o da Joint Commission Expert Roundtable focalizado na transformação do local de trabalho da enfermagem. De entre as suas recomendações fundamentais destaco a necessidade de promover o desenvolvimento científico da enfermagem. Falhar neste propósito de desenvolvimento social (!) significa o aumento de mortes evitáveis, complicações no tratamento dos doentes, aumento da duração do internamento desnecessário, assim como o risco de infecção hospitalar e outros efeitos negativos sobre o bem-estar, recuperação e reabilitação de cada doente.
Em diversos estados da União Europeia, incluindo Portugal, são milhares os postos de trabalho de enfermagem disponíveis. Este facto, deu lugar, em contextos nacionais onde a regulamentação é deficiente, ao fenómeno do “duplo-emprego de enfermagem” que, claramente, contribui para o aumento do risco e questiona a potencial melhoria da qualidade dos cuidados de saúde no seu global afectando, inclusive, a qualidade dos cuidados clínicos.
De entre os contextos profissionais onde este problema é mais preocupante, destaco os serviços de urgência hospitalar na sua dinâmica nacional de utilização indevida e excesso de população, cancelamento de cirurgias electivas, descontinuidade dos cuidados de saúde entre serviços dentro do mesmo hospital, nos cuidados na comunidade incluindo os chamados cuidados continuados, domiciliários e de promoção da saúde comunitária.
Embora a escassez de outros profissionais de saúde seja um factor grave de desequilíbrio na prestação de cuidados de saúde, é nos cuidados de enfermagem que reside o factor central de promoção de potenciais falhas qualidade e impacto sobre a qualidade de vida do utente dos serviços de saúde. Por isso, é pura demagogia a enunciação de um discurso organizacional de promoção da qualidade quando a prioridade dos “gestores” de organizações hospitalares é o corte de despesas com o “pessoal de enfermagem” reduzindo o rácio cama/enfermeiro e desinvestindo da formação avançada e apoio à qualidade de vida de cada enfermeiro. É ainda maior demagogia o discurso político de desenvolvimento de um sistema de saúde baseado nos cuidados primários quando, em Portugal, este é um sector sem incentivos, inclusive financeiros, ou perspectivas de desenvolvimento pessoal para os jovens enfermeiros altamente qualificados.
No contexto nacional, falta a Ordem dos Enfermeiros definir o Acto de Enfermagem e impor rácios de enfermeiro/doente, sobretudo nas unidades hospitalares. Ao ministério da saúde falta definir uma política de recursos humanos que adopte as tendências internacionais.
Entretanto, Portugal vai transformar-se em “exportador” de enfermeiros altamente qualificados cedidos a “custo zero” aos estados mais ricos da EU…
Paulo Kuteeve-Moreira, doutor em Gestão da Saúde pela University of Manchester. In Diário Económico
Publicado por Cris em outubro 9, 2005 06:31 PM | TrackBackapesar deste artigo já ter algumas semanas, parece-me que é importante a sua divulgação - a ser possivel - por todos e todas as enfermeiras. Atendendo a que não consegui chegar até ele no site do DE, será que é possivel fazer chegar este artigo a todos os sindicatos, OE e principalmente Ministro da Saúde (e suas diferentes organizações?), que parece acreditar viver numa realidade e pior, querer impor essa realidade em que parece acreditar, a todos os utentes e profissionais de saúde - já que agora fala em excesso de (no nosso caso) enfermeiros?
Que dizer dos enf. que não tem horas para formação porque o serviço não permite? que dizer dos turnos extraordinarios programados, porque os C.A. não pagam turnos extraordinários aos enfermeiros? que dizer do DIREITO ao ETE que não é reconhecido, porque o serviço o não permite? Que dizer de todos os enfermeiros e enfermeiras que andam de um lado para o outro em regime precário? Que dizer de toda a acumulação de duplos e triplos empregos que sustentam os privados? Que dizer, que dizer, que dizer.... Divulguemos este e outros artigos e principalmente, denunciemos todas as situações de usurpação de direitos, e de respeito, não apenas profissional mas que afectam os cuidados que prestamos, junto de sindicatos e OE. É altura de agirmos. não podemos mais ficar à espera de que algumas "cabeças pensantes" possam arcar com tudo; para o bem e para o menos bem.
Este artigo do Dr. Paulo Kuteev-Moreira, reveste-se de grande importância, dá-nos excelentes indicações de como transformar um sistema de saúde esquizofrénico, que não sabe utilizar um potencial “altamente qualificado”, que são os enfermeiros, num sistema equilibrado e racional, que sirva os portugueses de cuidados de saúde de grande qualidade e eficiência.
O Dr. Paulo Kuteev-Moreira, refere no seu artigo que é necessário “a transformação do local de trabalho da enfermagem”, é necessário “promover o desenvolvimento científico da enfermagem”, o que o autor nos diz é que é necessária uma prática de enfermagem avançada, que tenha por base o desenvolvimento dos enfermeiros, ao nível da gestão, da prática baseada na evidencia e guiada por guidelines internacionalmente credíveis, com especial tónica na formação de base e na formação continua alicerçada na investigação.
César fonseca
Fiquei esclarecido, obrigado Cris, beijo
Geraldinha! Gostei da visita, mas para quando o próximo post? beijo
Iceteaadict: há sobretudo precariedade. Começa-se agora a falar em desemprego provavelmente devido à diminuição da capacidade das instituições em empregar enfermeiros quer por problemas orçamentais, quer por utilizarem outras formas de recrutamento como a contratação de serviços.
Alegrão: a verdade é que a falta de enfermeiros é comum a vários países da UE e não só. Esses países privilegiam enfermeiros experientes, qualificados e capazes de falar a língua do país de acolhimento. Perante o estado de crise do nosso país, o fraco reconhecimento da profissão, os atentados às regalias sociais, a motivação diminui e a vontade de emigrar aumenta. Quanto à qualidade, isso já não interessa. Quantidade, isso sim, impressiona. Números, números e mais números. Onde é que isto vai parar?
beijinhos
Ontem estive num casamento de um colega vosso.
Foi-me dito que há enfermeiros no desemprego, sobretudo nos grandes centros urbanos. É verdade?
Um abraço
Ice
Na minha opinião o papel dos gestores hospitalares deve ser mesmo a contenção de custos. Contudo, uma vez que o que está em causa são vidas humanas, não pode ser prioritária a visão economicista, mas a qualidade dos serviços prestados.
Tenho uma dúvida a colocar referente ao último parágrafo da notícia que é a seguinte:
Será que se está a fazer com os enfermeiros o que se fez com os futebolístas?
Eu explico, mandamos os melhores para outros estados da UE e "importamos" outros acabadinhos de formar do exterior. Assim não estaremos a transformar os nossos hospitais em hospitais de segunda liga?
Perdoem a analogia, mas pareceu-me a maneira mais fácil de colocar a questão.
Fico a aguardar o esclarecimento mandando beijinhos.