Ontem ofereceram-me um bonsai!
Confesso que apesar de achar piada, nunca tive jeito para plantas, e comigo, nem a salsa dura muito tempo...
Ainda não tinham decorrido 24 horas e já o meu bonsai tinha tido um acidente: ao tirar as coisas do carro, caíu ao chão e partiu-se o vaso! Fiquei logo preocupada com a extrema sensibilidade da dita, já traumatizada ao fim de tão pouco tempo...
Hoje de manhã, como não sabia bem o que fazer, levei a árvore ao centro Luso-Bonsai em Campolide, onde foram muito atenciosos. Lá ficaram muito preocupados com umas folhas mais escuras que tinha, e ao fim de trocarem impressões uns com os outros, decidiram substituir-me o bonsai. Suspeitavam do início de uma praga, e já era o terceiro caso esta semana, manifestado por aquele tipo de folhas escuras. Escolhi outra Carmona , muito bonitinha, com umas flores brancas.
Lá pedi mais umas informações sobre como se rega, onde o punha, a história da poda e da transplantação. Ora acho que vou ter de lhe arranjar um calendário! De 15 em 15 dias tenho de lhe dar as vitaminas e rodar o vaso 180º, em Abril / Maio tenho de o levar lá para transplantar... todos os dias tenho de ver se já está a precisar de água... E se fôr de férias ou fim de semana, posso sempre deixar o bonsai no HOTEL, imagine-se só!
Bem, vamos lá ver como consigo conjugar o tratamento do bonsai com os turnos...
Já agora Alegrão, tenho mais umas fotos de pôr-do-sol que trouxe das férias que ponho em breve.
Tinha vontade de lhe dedicar um post semelhante ao que a Jacky dedicou à sua amiga. Pensei também em dedicar-lhe uma canção, tal como o Alegrão faz com os amigos. Mas pus-me a folhear aquele álbum de fotografias e o tempo foi passando.
Enternecem-me as recordações do que já passámos mas também estou curiosa com as futuras aventuras (é desta que fazemos o tal curso). Parabéns Geraldinha.
Detesto salas de espera. Sentamo-nos em cadeiras desconfortáveis, em salas muito pequenas, sobrelotadas e pouco ventiladas. Cruzamo-nos com pessoas doentes, que estiveram doentes ou que ainda não sabem se são doentes.
Cruzamos o olhar com os mais doentes e antevemos a nossa própria doença. As conversas em redor desfiam pormenorizadamente o processo de doença, os sintomas e as complicações. Desejamos levantar-nos e abandonar a sala, rejeitando todo e qualquer pensamento que nos leve a acreditar que temos aquela doença.
Durante aqueles longos momentos de espera, nem o televisor emudecido, nem as revistas antigas aliviam a ansiedade. A cada toque do intercomunicador sente-se uma náusea e um aperto no estômago.
É um ritual tortuoso pejado de angústia e de fragilidade que se repete vezes sem conta no doente crónico. Os doentes oncológicos, por exemplo, sofrem de náuseas e vómitos antecipatórios que começam frequentemente nas vésperas dos tratamentos e nem sempre a intervenção medicamentosa atenua este mal-estar.
É um fenómeno desconhecido, decerto, das entidades gestoras dos serviços de saúde, pois só assim se compreende o fraco (ou nenhum) investimento em minimizar os efeitos devastadores duma doença crónica.
Portugal comemorou pela primeira vez o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos ontem, 8 de Outubro, com inúmeros eventos programados pela Associação Nacional de Cuidados Paliativos para a próxima semana.
Todos os anos em Portugal mais sessenta mil pessoas necessitam de cuidados paliativos. As equipas de cuidados paliativos cobrem apenas três mil pessoas. É urgente reconhecer que os cuidados paliativos devem ser uma prioridade até pela dimensão do problema: quando alguém adoece numa família, toda a família adoece. Pelo menos três pessoas sofrem com o doente e, no nosso país, estima-se que cerca de 180 mil pessoas não tenham qualquer tipo de apoio.
Os cuidados paliativos são desenvolvidos por uma equipa multidisciplinar que inclui médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais e que se estende à família do doente terminal. O objectivo principal é ajudar as pessoas em fase terminal, os seus familiares e as pessoas próximas, escutando-as e acompanhando-as de forma a encontrar um novo sentido para a vida e, simultaneamente, aliviar o sofrimento e proporcionar condições de dignidade na vida, na doença e na morte.
A escassez de profissionais de enfermagem ameaça a vida das organizações prestadoras de cuidados de saúde e, mais grave, a vida dos cidadãos que a estas ocorrem.
O sucesso de todos os planos de “reforma”, um termo vitima de grande desgaste nos últimos 15 anos, assim como os planos de investimento dos agentes do sector privado/social, no contexto do nosso Serviço Nacional de Saúde, é ameaçado por este factor.
Curiosamente, sondagens internacionais em que se pede ás pessoas que classifiquem as profissões mais prestigiadas começam a atribuir à profissão de enfermagem um lugar entre as cinco profissões mais prestigiadas do mundo ocidental entre investigadores/cientistas, professores, clínicos, assistentes sociais, oficiais do exército ou até bombeiros.
De facto, em diferentes trabalhos do género a profissão de enfermagem distingue-se como uma das profissões a que se atribui um crescente papel de modernização dos cuidados de saúde em completa sintonia com a própria evolução científica da profissão clínica.
Outros estudos, muito mais sérios que as simples sondagens, confirmam a tendência e indicam que a crescente escassez de enfermeiros qualificados experientes aumenta o risco e questiona o sucesso da intervenção das unidades prestadoras de cuidados de saúde. Estão vidas humanas em risco. Estão em risco os resultados do investimento no sector da saúde. Não se trata, porém, do “value for money” mas antes da avaliação dos “outcomes” da intervenção em cada cidadão e utente dos serviços de saúde.
Um dos relatórios que mais impacto teve nesta análise internacional no contexto da investigação em gestão em saúde em que trabalho faz mais de quinze anos, foi o da Joint Commission Expert Roundtable focalizado na transformação do local de trabalho da enfermagem. De entre as suas recomendações fundamentais destaco a necessidade de promover o desenvolvimento científico da enfermagem. Falhar neste propósito de desenvolvimento social (!) significa o aumento de mortes evitáveis, complicações no tratamento dos doentes, aumento da duração do internamento desnecessário, assim como o risco de infecção hospitalar e outros efeitos negativos sobre o bem-estar, recuperação e reabilitação de cada doente.
Em diversos estados da União Europeia, incluindo Portugal, são milhares os postos de trabalho de enfermagem disponíveis. Este facto, deu lugar, em contextos nacionais onde a regulamentação é deficiente, ao fenómeno do “duplo-emprego de enfermagem” que, claramente, contribui para o aumento do risco e questiona a potencial melhoria da qualidade dos cuidados de saúde no seu global afectando, inclusive, a qualidade dos cuidados clínicos.
De entre os contextos profissionais onde este problema é mais preocupante, destaco os serviços de urgência hospitalar na sua dinâmica nacional de utilização indevida e excesso de população, cancelamento de cirurgias electivas, descontinuidade dos cuidados de saúde entre serviços dentro do mesmo hospital, nos cuidados na comunidade incluindo os chamados cuidados continuados, domiciliários e de promoção da saúde comunitária.
Embora a escassez de outros profissionais de saúde seja um factor grave de desequilíbrio na prestação de cuidados de saúde, é nos cuidados de enfermagem que reside o factor central de promoção de potenciais falhas qualidade e impacto sobre a qualidade de vida do utente dos serviços de saúde. Por isso, é pura demagogia a enunciação de um discurso organizacional de promoção da qualidade quando a prioridade dos “gestores” de organizações hospitalares é o corte de despesas com o “pessoal de enfermagem” reduzindo o rácio cama/enfermeiro e desinvestindo da formação avançada e apoio à qualidade de vida de cada enfermeiro. É ainda maior demagogia o discurso político de desenvolvimento de um sistema de saúde baseado nos cuidados primários quando, em Portugal, este é um sector sem incentivos, inclusive financeiros, ou perspectivas de desenvolvimento pessoal para os jovens enfermeiros altamente qualificados.
No contexto nacional, falta a Ordem dos Enfermeiros definir o Acto de Enfermagem e impor rácios de enfermeiro/doente, sobretudo nas unidades hospitalares. Ao ministério da saúde falta definir uma política de recursos humanos que adopte as tendências internacionais.
Entretanto, Portugal vai transformar-se em “exportador” de enfermeiros altamente qualificados cedidos a “custo zero” aos estados mais ricos da EU…
Paulo Kuteeve-Moreira, doutor em Gestão da Saúde pela University of Manchester. In Diário Económico