O crescente interesse em ser enfermeiro resulta dum conjunto de circunstâncias sociais e culturais e duma multiplicidade de motivações, expectativas e intenções.
Quando, há meses, indaguei o que é ser enfermeiro, as respostas concentraram-se numa ambivalência que pode, em suma, caracterizar a enfermagem. Concretamente, os enfermeiros (e não só) focaram os aspectos menos favoráveis da profissão como a retribuição, os dias e noites sem dormir, a fraca valorização da sociedade e – em oposição – destacaram a enfermagem como uma profissão que promove a saúde, respeita o próximo, vinculada ao conforto e ao carinho.
Para os que dão os primeiros passos nesta profissão, é importante que conheçam os condicionalismos característicos da enfermagem, mas também que reconheçam o contributo da profissão para o processo de saúde dos utentes e das comunidades.
Ser enfermeiro...
... é tudo aquilo que eu mais ambiciono na vida e uma maneira de estar, de se apresentar ao mundo de braços abertos (...) é uma forma de viver com e para o próximo, sem nunca deixarmos de ser nós próprios. André
... é acumular noites e dias sem dormir, decretar luto social quando empregado em instituições privadas, não ser remunerado de forma justa, e ainda assim encontrar tempo para investir na actualização de conteúdo (...) E conseguir ser feliz ainda assim. Francisco Graciliano
... é ser antes de tudo solidário ao próximo constantemente, mesmo sem conhecê-lo. o Enfermeiro mantém a vida, diminui o sofrimento, transmite carinho até com pequenos gestos, sempre promovendo saúde, conforto e contentamento. Paula Maciel
… é, antes de mais, preocupar-se com as pessoas, preocupar-se com o ambiente que nos rodeia, é saber estar em relação com pessoas diferentes de mim. É ter o desejo intimo de um olhar de agradecimento! Pedro José Silva
… é ajudar o próximo, é saber defender os nossos direitos como profissão independente que é a enfermagem, é ter consciência da responsabilidade de se ser ENFERMEIRO (...) é motivar-se no que faz, é manter o auto-controlo em situação de pressão e stress, é manter o humor apesar de tudo, manter-se actualizado para aumentar as competências necessárias para cuidar de seres humanos, é saber comunicar... Cristiana
Enfermagem...
... é das profissões mais completas, mais bonitas... enfim acho que é tudo de bom.Tenho plena consciência de que é preciso dedicarmo-nos de corpo e alma á profissão, e ter principalmente muito respeito pelo próximo. Patricia
… é uma profissão que admiro. Os enfermeiros (e não só) conseguem fazer com que tenha memórias de afectos das minhas passagens pelas camas de hospitais, felizmente pouco frequentes, mas sempre numa situação de vulnerabilidade em que, para além dos tratamentos, a dedicação, um sorriso e uma palavra carinhosa confortam. Encantada
Durante muito tempo, a profissão da minha mãe significou choro incontido por se ir embora à noite e não estar lá para me aconchegar a roupa, significou cuidados redobrados e privilégios nos hospitais quando estava doentinha, significou viver com uma pessoa sempre com histórias engraçadas para contar... Hoje significa conhecer e conviver com uma pessoa que se dedicou ao cuidar, ao tratar, ao afagar qualquer pessoa, de qualquer cultura. É uma lição de respeito pelo sofrimento, sermos melhores para os outros, pelos outros. Maria João
Os portugueses utilizam por vezes palavras e expressões "aportuguesadas" ou um pouco "fora do comum" para se exprimirem. A área da saúde não é excepção para este tipo de situações, e quem está a prestar cuidados vai-se apercebendo da necessidade utilizar por vezes estas mesmas palavras ou expressões para que haja um mais fácil entendimento.
É muito comum ouvirmos:
"eu tive uma argália";
"eu queria ver a atensão";
"fui operada à barriga" ou "tiraram-me as miudezas" - referindo-se ao útero.
No entanto, ouvi umas expressões novas nos últimos tempos, algumas das quais fixei e que são as que aqui vou deixar:
"ele está muito constipado dos olhos" - referindo-se a lacrimejo;
"estou farto de lhe pôr soro nas ventas";
"o ranho é transparente mas os burriés são verdes".
E ainda há quem pense que é fácil manter um ar sério e profissional em qualquer situação...
A inaptidão (quase) total do cidadão comum para prestar assistência aos necessitados é uma constatação cada vez mais evidente. Todos os dias testemunhamos, chocados, as consequências duma assistência ineficaz quer se tratem de sinistrados, de doentes crónicos ou de crianças.
À medida que as sociedades se desenvolveram passou a haver menos tempo para cuidar dos familiares mais próximos. Para poder melhorar o nível profissional, são necessárias maior eficiência e rapidez, tudo em prol dum sucesso muito ansiado. Deixámos de cuidar das plantas e dos animais, e adoptámos um comportamento social que consiste em afastar a doença e a morte do contexto familiar.
A doença surge brusca e inesperadamente, sem que haja capacidade de resposta à nova realidade, e é sentida como uma injustiça ou como um entrave ao natural curso do dia-a-dia.
Exige-se, no mínimo, a capacidade de todos os indivíduos mobilizarem conhecimentos e mecanismos básicos, de forma a intervir numa urgência, salvando vidas ou salvaguardando a qualidade de vida das vítimas de acidente ou de doença.
Tudo começa por (re)integrar a doença e a morte na formação pessoal, ajudando os mais novos a compreenderem e a aceitarem estes processos, ao invés de os afastar de todo desse confronto. Afinal, doença e morte são partes inevitáveis, comuns e normais da experiência humana.
Até lá, seja qual for a formação de cada um, podemos pelo menos repensar as prioridades e prepararmo-nos minimamente para cuidar das crianças, dos doentes e dos acidentados.
A "Maria" era uma criança entre os 2 e os 3 anos que estava sentada ao colo da mãe enquanto aguardava uma reavaliação médica. Parecia uma boneca, daquelas meninas com fitinha no cabelo, toda muito côr-de-rosa...
Entretanto decidiu desatar num berreiro daqueles...
De cócoras e com um pouco de conversa (do tipo aquele menino é mais pequenino e está-se a portar melhor que tu, e se não chorares mais dou-te um pacote de bolachas...) lá chegámos a um acordo. Mas qual não é o meu espanto, que ainda não me tinha posto de pé e já estava a "Maria":
- " Então pá! As minhas bolachas?"