Cuidados Intensivos
"A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa,
ferido, no meu coração,
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos, os seus sentidos,
os seus dias visíveis e invisíveis,
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim,
os parentes, os amigos,
a vaga enfermeira da noite,
que enquanto o meu único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu,
provavelmente eu.
Os livros, as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?"
Manuel António Pina
in Cuidados Intensivos
Porto: Afrontamento, 1994.
De acordo com as directrizes para a prescrição de exames imagiológicos adaptadas por peritos representativos da Radiologia e da Medicina Nuclear Europeia, os exames complementares de diagnóstico como o Raio-X e a TAC (Tomografia Axial Computorizada), são aceites na prática clínica e justificam-se se houver claras vantagens para o doente, que vão contrabalançar com o pequeno risco associado às radiações.
É habitualmente considerada a recomendação de que todos os exames sejam optimizados no sentido de se obter o máximo de informação com o mínimo de radiação. Isto porque até mesmo pequenas doses de radiação não são totalmente isentas de risco. Daí que o doente nem sempre efectue os exames que deseja.
É muito frequente numa situação de triagem hospitalar (aquela com que estou diariamente em contacto), ouvir as pessoas dizer: "eu quero fazer, ou quero que o meu filho faça um Raio-X ou um TAC, para ficar descansado". E há muitas que não ficam satisfeitas quando o médico não o prescreve (porque não considerou necessário).
Mas será que se tem a noção de que:
- A um (1) Raio-X de tórax simples, por exemplo, corresponde uma dose efectiva de 0,02mSv, o equivalente a um período aproximado de três (3) dias de radiação natural?
- A um (1) TAC de cabeça corresponde uma dose efectiva de 2,3mSv, o que equivale a cento e quinze (115) Raio-X de tórax e a um período aproximado de um (1) ano de radiação natural?
Nasceu em Alhandra a 5 de Dezembro de 1947 e faleceu a 1 de Setembro de 2003. Iniciou a sua actividade teatral aos catorze anos em Grupos de Amadores, formou-se na Escola Superior de Teatro e dedicou-se, fundamentalmente, à escrita, à formação e à encenação. Era, à data da sua morte, Chefe da Divisão de Actividades Culturais do INATEL, Director Artístico da Companhia de Teatro Camarim e encenador do Grupo de Teatro Amador da EPAL.
Dramaturgo, encenador, escritor, político, foi também enfermeiro no Hospital Militar de Lisboa e, posteriormente, em Angola entre 1969 e 1971.
Escreveu, entre outros, os seguintes textos:
Nunca te disse que conheço as almas boas pelo calor das mãos? - Menção Honrosa CITAP (1987);
O Solário - Prémio Eça de Queiroz (1992), da C. Municipal de Lisboa, distinguido pela Secção Nacional da Associação Internacional de Críticos como a melhor peça de 1992, presente na Feira de Frankfurt (1993);
Princípe Bão - Prémio Baltazar Dias (1995), C.M. Funchal;
A Última Batalha - Grande Prémio SPA/Novo Grupo (1999);
A Última Questão - Menção Honrosa do Prémio Joaquim Namorado (1996);
Pastéis de Nata para a Avó - 2º Prémio CITAP (1993), 1º Prémio A Barraca (1994);
Verdes Aventuras de D. Quixote (Infantil), por encomenda do Grupo TELEPAC, que a estreou em 1997;
O Enterro, por encomenda da Companhia Teatro Experimental do Funchal, que a estreou em 1998;
Andou um Anjo pelo Cais - Prémio Miguel Torga (1996) da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro;
Ó da barca per onde is? - versão livre do Auto da Barca do Inferno;
O Corvo de Lisboa - Conjunto de rábulas para os espectáculos «Quem tem boca vai ao Roma», de Simone de Oliveira e Carlos Quintas, no Forum Roma, 1998;
Um Pequeno Mago com um Chapéu na Cabeça (ensaio sobre Ribeirinho) - Edição INATEL, 1998;
Traduziu para o Grupo da TELECOM, «A Casa de Bernarda Alba», de Garcia Lorca. Escreveu para diversos grupos sete Revistas à Portuguesa. Para Televisão, em co-autoria com outros autores, escreveu O Sétimo Direito (RTP1), Ora Bolas Marina (SIC), Quem Casa Quer Casa (TVI), Marina Dona Revista (SIC) e Bora lá Marina (TVI).
Escreveu ainda dezenas de poemas, canções e inúmeros artigos para a imprensa.
Saboreio quase languidamente um cálice de anis escarchado
Duma garrafa que me deu alguém um dia
E repousou em sossego, durante anos, no armário.
Saboreio-o reclinado sobre a grande memória das coisas.
Do cheiro a caranguejos e a lodo que sobe do rio,
Da aragem ácida, que se desprende dos montes de sal ao sol,
Das sirenes das fábricas no concerto quotidiano do meio-dia,
Do quase imperceptível odor do negro alcatrão
Liquefazendo-se sem defesa sobre os calores do Verão...
Saboreio-o olhando para baixo, para mim,
Um outro eu, de bata branca, sem angústias, rugas ou enfartes,
Sentado na borda do lago do jardim da escola,
Comendo quase com volúpia um pão prenhe de marmelada,
Que a minha mãe embrulhara de manhã num alvo guardanapo.
Saboreio-o reclinado sobre a memória das coisas
E uma leve névoa tolda-me os olhos.
Não, não estou a sonhar, nem atacado de melancolia.
É apenas a noite do meu aniversário e nessas datas,
Ao menos por uns brevíssimos instantes,
Todos temos tendência para nos reclinarmos um pouco
Sobre nós mesmos e a grande memória das coisas.
(Deixa-me mas é escorropichar o cálice para acabar com isto!)
5/12/2001
Fomos passar um dia a Viana do Castelo (eu e a Cris) e, como é natural, procurámos reservar alojamento antecipadamente. Qual não foi o espanto, quando deparámos com uma Pousada da Juventude flutuante. O navio Gil Eanes foi construído nos estaleiros navais de Viana do Castelo e foi lançado ao mar, ou melhor, foi posto a flutuar no dia 19 de Março de 1955. Em 1996 foi resgatado à sucata com a finalidade de lhe atribuir o valor emblemático e histórico merecido.
O antigo Navio Hospital, que dava apoio e assistência à frota do bacalhau, nos mares da Terra Nova e Gronelândia, foi restaurado e uma parte transformada em pousada, e está agora ancorado no antigo porto de mar de Viana do Castelo. Em cada época de pesca efectuavam-se cerca de 4000 a 4500 consultas, ficavam internados a bordo, aproximadamente e por campanha, 400 doentes acidentados ou com doenças de menos gravidade. Executavam-se por época, cerca de seis a sete dezenas de intervenções de grande cirurgia, cerca de duas centenas de extracções dentárias, inúmeros exames radioscópicos, um sem número de análises e variadas intervenções diárias de pequena cirurgia.
Adorei pernoitar na camarata dos convalescentes e visitar o Museu. O navio dispõe ainda de um bar e de uma pequena loja de recordações náuticas, cujo lucro reverte a favor de crianças com deficiências mentais. Acho que Portugal ganhava muito em aproveitar, de formas como esta, algum do património que tem.