novembro 20, 2004

enfermeiros na poesia - V

SONS QUE PASSAM

1
Cada um é para o que nasce mas aquele visivelmente não nascera para ter uma gangrena gasosa e afinal não tinha mesmo outra coisa senão a pata que já não tendo lhe doía como burro e em vez dela um buraco ou em vez deste umas esquírolas de osso que não doíam o que doía era a pata fantasma a perseguição da pata com cãibras por um mau jeito qualquer e em baixo a gangrena a ascensão do podre esse único imponderável seu que não doendo de todo o mataria numa noite

2
estávamos a dormir na camarata grande quando o da gangrena berrou e logo dois enfermeiros foram por ali fora pelo corredor aos tropeções a dar nas portas como se acender a luz violasse um código horrendo e se calhar durando a coisa três minutos antes de o analgésico fazer efeito uns sopros mastigados simultaneamente com o crescendo das vozes (os enfermeiros) acerca da melhor maneira que um deles havia um de voz mansa agradabilíssima ao ouvido e o interlocutor enquanto na camarata o fumo dos AC e dos Swing e a seguir o que dormia ao pé do armário «boa noite» e emborcou o focinho para a parede

3
o da gangrena acordou às seis com o seu berro muito maior

caem do tecto largas porções de estuque

aterrorizado vou por água tremo entorno o copo de plástico

dos dois enfermeiros há agora só um bêbado de sono «ó pazinho» diz ele

magoa-se na porta magoa-se na manivela e diz «estes gajos»

4
o da gangrena morreu às sete e meia
quando acordei enrolavam os lençóis numa trouxa e o cobertor fanavam-lhe os pertences de cima da mesa de cabeceira
um alferes de Micula ainda pôs a hipótese de nos queixarmos ao médico de dia o que é são chatices atrás de chatices a tropa chacun governa-se quem lerpa não repete a sopa
«sons que passam» lembrei-me: um título inquietante do sr. Thomaz Ribeiro datado de Parada de Gonta a 30 de Agosto de 1867 «cantos que só têem affinação no theatro modelado pela acustica do infinito»

Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular,
Edições Asa, Outubro de 1997.

Publicado por Cris em 08:53 PM | Comentários (3)

novembro 14, 2004

super-investigações

Christopher Reeve, o mais famoso adepto da investigação em células estaminais, foi homenageado pelo International Council of Nurses (ICN):

«As enormes capacidades de Christopher Reeve permitiram-lhe superar as suas terríveis incapacidades físicas - a sua habilidade em advogar com sucesso em favor dos direitos dos deficientes, a sua capacidade de influenciar o poder político, a forma como conseguiu condicionar as agendas de investigação e mesmo, o investimento feito em áreas de investigação relacionadas com as lesões da medula espinal, e a sua capacidade de focalizar os "corações e cabeças" de todo o mundo na batalha pelos deficientes e contra a deficiência. Como enfermeiros, sabemos que a sua luta requereu enorme coragem e esforço físico. Felicitamos o seu esforço incansável para incentivar a investigação médica em benefício das gerações futuras».

A investigação sobre células estaminais despertou um debate mundial e controverso sobre as questões éticas envolvidas. As células estaminais são células-mãe, ou seja, células progenitoras que podem ser convertidas em células de qualquer tipo e estão presentes no embrião, no cordão umbilical e na medula óssea. Ressalvados os aspectos éticos, pode-se adivinhar as aplicações terapêuticas deste advento científico no tratamento de doenças degenerativas ou doenças crónicas.

Entretanto, sem que ninguém perceba bem como, Portugal é signatário de uma proposta apresentada na ONU que pretende banir todas as técnicas de clonagem. Os principais argumentos apontados referem-se à dificuldade em limitar a investigação à clonagem terapêutica e ao risco de milhões de mulheres (dos países em desenvolvimento) venderem os seus embriões. Outros países, como a Bélgica, defendem apenas a interdição da clonagem reprodutiva.
E é assim que Portugal se afasta da investigação duma área científica prometedora a que muitos super-homens têm devotado o seu esforço.

Publicado por Cris em 10:47 PM | Comentários (0)

novembro 06, 2004

absolvida jovem acusada de aborto

A jovem acusada de aborto por denúncia de um enfermeiro foi absolvida por não ter sido provada a prática de crime. Paralelamente, o Conselho Jurisdicional da Ordem dos Enfermeiros (OE) prossegue com o processo de averiguações de eventual quebra do sigilo profissional.

O sigilo profissional abrange toda a informação que é recebida no exercício profissional e só pode ser quebrado perante manifesto risco para a pessoa e comunidade e requer aconselhamento jurídico e deontológico. A actuação do enfermeiro veio abalar a confiança da comunidade nos enfermeiros. Poderá inclusive, levar a que outras mulheres, com complicações após abortos clandestinos, a não recorrerem aos serviços de saúde, por medo de serem criticadas, denunciadas e presas, com um grande risco para as suas vidas.

«A confiança, diz Lucília Nunes, presidente do Conselho Jurisdicional da OE, é um dos pilares da profissão. Espero que os cidadãos continuem a confiar nos enfermeiros».

A interrupção voluntária da gravidez, a lei que a regulamenta, o planeamento familiar e a educação sexual inexistentes, envolvem questões que provocam, muitas vezes, situações de injustiça. Mais do que uma discussão, exigem uma reflexão profunda e séria, livre de hipocrisias e falsos moralismos.

Publicado por Cris em 08:59 PM | Comentários (2)

novembro 01, 2004

doar medula óssea

Este post deve-se ao interesse manifestado por amigos e conhecidos sobre a doação de medula óssea.
Antes de mais, importa compreender que o transplante de medula óssea é uma estratégia terapêutica que permite a cura de muitas doenças, entre as quais as do foro hematológico como as leucemias.
O transplante de medula consiste na substituição da medula doente por outra normal de dador saudável HLA (sigla inglesa de antigénios de leucócitos humanos) compatível, de dador familiar ou de um dos sete milhões de voluntários inscritos num registo mundial. A medula do dador é fornecida ao doente como uma vulgar transfusão de sangue.

Para ser dador de medula óssea é necessário ter entre 18 e 45 anos de idade, ser saudável e dirigir-se ao CEDACE (Centro Nacional de Dadores de Células de Medula Óssea, Estaminais ou de Sangue do Cordão) ou a um dos Centros de Histocompatibildade (Norte, Centro e Sul).
Na primeira fase o dador responderá a um inquérito clínico que será devidamente avaliado. Se não for detectada nenhuma contra-indicação, far-se-ão colheitas de sangue para tipagem e determinação de marcadores virais.


Sempre que um doente não tiver um dador familiar compatível é iniciado um processo de pesquisa em registos de dadores. Quando um potencial dador é identificado efectua-se um exame médico rigoroso e, depois de esclarecidas todas as dúvidas, é assinado um impresso de consentimento informado. Estão então cumpridas as várias etapas para se ser dador de medula óssea.

Existem dois processos de colheita de células para transplante de medula:
• Colheita a partir da Medula Óssea:
Células progenitoras colhidas do interior dos ossos pélvicos. Requer geralmente anestesia geral e uma breve hospitalização.
• Colheita de Células Progenitoras Periféricas:
Colheita feita no sangue periférico, geralmente dum braço, através de um processo chamado aférese, em que o dador tem de tomar previamente um medicamento que estimule a produção de células progenitoras no sangue.

Além destes dois métodos, também é possível colher células progenitoras do cordão umbilical. O cordão umbilical tem uma percentagem muito elevada de células progenitoras mas, como a quantidade geralmente é pequena, são utilizadas, sobretudo, no transplante em crianças.

Actualmente, o registo nacional de dadores de medula óssea conta com cerca de 22 mil dadores identificados que, através de gestos simples, contribuem para a vida de muitas pessoas.

Publicado por Cris em 07:18 PM | Comentários (4)