abril 30, 2004

Maria Rosa Colaço

Maria Rosa Colaço

Nasceu no Torrão em 1935 e reside actualmente em Almada. Fez o curso de Enfermagem no Instituto Rockfeller e frequentou a Escola do Magistério Primário, mas foi como jornalista e como autora de diversos contos e poemas - alguns dos quais musicados - que o seu nome se tornou conhecido.

Várias vezes galardoada, é autora de obras como A Criança e A Vida (1984), Aventura com asas (1989), Maria Tonta como eu (1995), Viagem com Homem Dentro (1998), Espanta Pardais (2001), O Coração e o Livro (2004) e, ainda, de diversos programas televisivos para crianças e peças de teatro.


Outra margem

E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.

(Musicado por Trovante no álbum Baile no Bosque, 1981)

Publicado por Cris em 11:55 PM | Comentários (7)

abril 25, 2004

as portas que abril abriu

Populares em festa num carro de combatePara alguns jovens enfermeiros de hoje deve ser difícil conceber a realidade vivida antes de Abril de 74, onde primava um clima de guerra, de opressão severa de toda e qualquer manifestação, mesmo que cultural e inofensiva para o regime. Recapitulo os testemunhos dos meus familiares e os inúmeros documentos que constatam essa realidade.

Para resumir, basta dizer que os direitos e liberdades de cidadania estavam inteiramente vedados e as prisões estavam cheias de pessoas que pensavam diferente ou que eram diferentes, denunciadas pelos seus amigos, familiares ou vizinhos. A censura, a PIDE/DGS, reprimiam qualquer movimento oposicionista. Durante décadas, Portugal viveu um regime ditatorial que impeliu o país para um atraso económico e cultural de que foi difícil recuperar.

Durante o Estado Novo, procedeu-se à reforma do ensino e da prática de enfermagem e impõs-se a proibição do casamento às enfermeiras, uma medida inspirada no modelo fascista italiano e que só foi revogada mais de 20 anos depois (em 1963) com a permissão do casamento para as enfermeiras hospitalares. O estado da saúde era claramente selectivo com uma classificação da população em 3 grupos: os pensionistas (os que podiam pagar as despesas com a saúde), os pobres ou porcionistas (os que podiam pagar parte das despesas) e os indigentes (os que nada podiam pagar).

Vieira da SilvaApós o 25 de Abril de 1974, as transformações no papel social, profissional e familiar da mulher foram marcantes. Vencida a primeira batalha na luta pela igualdade, a mulher conquistou o direito ao voto, o direito ao trabalho no exterior. As mulheres reinventaram o seu papel alcançando o acesso a todas as profissões, o direito a possuirem passaporte ou contas bancárias, o direito a sairem do país sem autorização escrita dos maridos e foram reconhecidas como cidadãs de plenos direitos assumindo papéis políticos.
Foram abolidas as certidões de bom comportamento moral e cívico e as informações da polícia necessárias a quem desejava obter certos empregos. Deixaram de ser necessárias as licenças de isqueiro. A coca-cola, as calças de ganga entraram definitivamente no nosso mercado. A censura acabou e o direito à informação é irrevogável. As manifestações culturais eclodem sem limites à criatividade.


25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
0 dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sofia Mello Breyner in O nome das coisas (1977)

Publicado por Cris em 01:33 AM | Comentários (3)

abril 23, 2004

é fatal ser poeta

Um estudo divulgado no Dia Mundial do Livro revela que os poetas morrem mais cedo que outros escritores. Com efeito, têm sido encontradas relações entre os poetas e as doenças mentais, sendo que as poetisas são mais propícias a padecer de doença mental. O estudo intitula-se «Sylvia Plath», em homenagem a uma poetisa que se suicidou aos 30 anos.

Child

Sylvia Plath (1932-1963)
Your clear eye is the one absolutely beautiful thing.
I want to fill it with color and ducks,
The zoo of the new

Whose names you meditate
April snowdrop, Indian pipe,
Little

Stalk without wrinkle,
Pool in which images
Should be grand and classical

Not this troublous
Wringing of hands, this dark
Ceiling without a star.

Sylvia Plath, 28 de Janeiro de 1963

Publicado por Cris em 11:40 PM | Comentários (1)

abril 18, 2004

os verdadeiros selvagens

Poucas pessoas terão a oportunidade de contemplar de perto um mamífero marinho. A primeira vez que me sucedeu fiquei tão fascinada com a beleza, com o processo de selecção natural, que só veio reforçar o meu encanto e o meu interesse em contribuir para a protecção destas magníficas criaturas.

Compreenderão então o choque ao saber destas notícias e ao ver estas imagens. É porque acho importante para a preservação destas espécies, que barbaridades como estas devem ser denunciadas. Entretanto, espero que cedam aos encantos destes seres e contribuam para a sua defesa e preservação.



Os mamíferos marinhos, constituem um grupo altamente especializado de mamíferos que se adaptaram ao mar e que dele dependem na totalidade, ou pelo menos em parte do seu ciclo de vida. A designação mamíferos marinhos, é utilizada para designar diversos organismos que diferem entre si na aparência e nas estratégias de sobrevivência que utilizam. Essas diferenças colocam-nos em diversas ordens biológicas.

A orca pertence à ordem Cetacea. As orcas estão distribuídas por todo o mundo, embora sejam mais abundantes nos pólos. São seres dotados de um extraordinário sentido de grupo, cujos laços se mantêm uma vida inteira podendo persistir de uma geração para a outra.

O manatim pertence à ordem Sirenia. Os sirénios são os únicos mamíferos marinhos que comem essencialmente plantas. Os manatins são animais dóceis, pacíficos e com uma organização social simples. Estabelecem comunicação através de apelos curtos, monocórdicos, geralmente entre mãe e cria. São também estudadas as suas interacções que se manifestam por gestos muito simples e por intermédio de mensagens químicas (paladar, olfacto).

A foca pertence à ordem Pinnipedia - palavra que faz alusão a termos latinos que significam «pés em forma de asa». As focas são extremamente dotadas para o meio aquático com uma anatomia adaptada ao mergulho e movimentam-se pouco à vontade em terra, sendo incapazes de caminhar sobre as barbatanas anteriores.

Publicado por Cris em 10:04 PM | Comentários (3)

«Desespero atroz»

Quero dizer antes de mais, que tive uma crítica no meu último post, em que me recomendaram que "falasse de enfermagem" (se calhar falei muito mal ou sem razão do assunto em questão?!). Volto agora com um tema que talvez seja mais bem recebido... Para mim, um tema como outro qualquer.
Apesar de ser enfermeira e passar mais de metade da minha vida num hospital, interesso-me por muitos assuntos não directamente relacionados com a minha profissão. Na criação deste blog também ninguém se comprometeu a falar exclusivamente de enfermagem (retalhos da vida de três enfermeiras...)
Fico-me por aqui. Vamos ao post que se faz tarde.

Assisti há uns dias a uma cena (perdoem-me a expressão, mas nem sei como lhe hei-de chamar)... Assisti a algo que excede todos os parâmetros do razoável!
Uma adolescente de 15 anos em sofrimento atroz (sim, porque acredito que só alguém nestas circunstâncias consegue gerar tal situação!), surge no hospital com uma história de tumor do pâncreas diagnosticado um mês e meio antes. Vinha com uma carta dirigida à mãe e que apresentou. Dizia, entre outras coisas, que se deveria dirigir ao nosso hospital, para ser submetida a quimioterapia. Vinha com o cabelo rapado, uma pré-adaptação para a quimioterapia, segundo ela. A carta fazia uma chamada de atenção alarmante para a sua pessoa: não deveria ser contrariada e dever-lhe-ia ser disponibilizado todo e qualquer apoio, «até mesmo porque, um bem-estar psicológico beneficia sempre um bem-estar físico».
Na leitura da referida carta, apesar dos muitos termos técnicos utilizados e do relacionamento efectuado entre vários itens e que faziam algum sentido, surgiram dúvidas aos profissionais, pois alguma da linguagem utilizada não era a habitual num técnico de saúde.
Contactado o hospital de origem, fomos informados de que o nome do indivíduo que tinha assinado a dita carta, não existia. Fora tudo forjado!

Como é possível que alguém esteja tão desesperado ao ponto de conseguir simular tal situação? E como foi possível que aquela família não se tivesse apercebido de nada? Que tenha encarado tudo com normalidade?

Publicado por geraldinha em 09:40 PM | Comentários (1)

abril 16, 2004

Reciclar é que está a dar

Penso que nos dias que correm, ninguém tem dúvidas sobre a importância da reciclagem na construção dum ambiente mais saudável.
Assim como em nossa casa, nas instituições hospitalares há muito lixo que pode ser reciclado. No entanto, nem todas aderem ainda a esta prática no nosso país.

É claro que não é possível reciclar todos os resíduos e alguns terão que ser incinerados. Mas existem muitas embalagens e quilos de papel que diariamente se deitam fora num hospital e que são perfeitamente recicláveis.
Esperemos que todos tomem rapidamente consciência da importância deste assunto.

Publicado por geraldinha em 12:34 AM | Comentários (5)

abril 14, 2004

Modernices...

Quem é o felizardo que nunca teve de comer um bife para conseguir estacionar o carro num sítio apertado?
Falo daqueles que não conhecem ou conheceram os carros sem direcção assistida. Aqueles que eram os mais comuns até há alguns anos atrás.

Mas os tempos mudam e muitas coisas evoluem. De tal forma que ontem ia à minha frente um carro de uma escola de condução que era, nada mais, nada menos, que um Audi A3, 1.9 TDI!
Até pode ser algo muito comum hoje em dia, mas sou distraída e nunca tinha reparado...
Fiquei surpresa...

Publicado por geraldinha em 09:38 PM | Comentários (2)

Plano de emergência hospitalar

Na instituição em que trabalho, realizaram-se alguns cursos sobre o plano de emergência da instituição, com o intuito de dar a conhecer o mesmo aos profissionais das diversas áreas.
Foram abordados temas específicos como comportamentos e atitudes a ter, caso ocorra uma situação de grande acidente ou catástrofe; resposta à emergência pela Protecção Civil e pelo INEM; reorganização do Serviço de Urgência para recepção das vítimas e actuação perante um incêndio na instituição.
Estiveram presentes entidades como a Protecção Civil, INEM e Bombeiros, entre outras.
A realização de cursos ou palestras nesta área é sem dúvida de enaltecer. Creio que todos temos noção, da importância de um correcto envolvimento de todos os elementos numa situação de catástrofe.
É pena, que no entanto, esta situação só ocorra, nas vésperas de um Euro 2004 e de um Rock in Rio. É também de lamentar, que apenas um grupo restrito de indivíduos tenha acesso à informação, informação esta, que a meu ver, deveria ser obrigatória para todos os elementos admitidos na instituição.

Publicado por geraldinha em 12:32 AM | Comentários (3)

abril 13, 2004

viver é recordar

Está provada a eficácia do trabalho em equipa nos cuidados de saúde, de que resulta quase sempre a melhoria da qualidade dos cuidados prestados, a satisfação do utente e o reforço da moral e espírito de equipa.

Quando comecei nesta profissão, fui inserida numa pseudo-equipa de trabalho cujas interacções e objectivos eram tão díspares que, ao fim de alguns meses, mudei de instituição. Tive então a sorte de ingressar num serviço com equipas de trabalho já constituídas e mais ou menos coesas. Fiz a habitual travessia do deserto até ganhar a confiança, respeito ou consideração dos colegas. Foi neste ambiente que fiz várias amizades e que vivi momentos inesquecíveis.

Num clima de imprevisibilidade como é o de um serviço de hematologia e quando as circunstâncias não são favoráveis, como durante uma reanimação cárdio-respiratória, nada substitui a sensação de estar rodeada de colegas competentes, com quem se partilha entreajuda e compreensão plena e com quem um simples olhar basta.

Gosto de recordar estes tempos como os melhores até agora. Gosto de folhear um álbum de fotografias que testemunham alguns desses momentos embora não precise dele para lembrar aquela noite (madrugada) do meu aniversário em que uma amiga me surpreendeu, no serviço, com um bolo. Ou então das aventuras da nossa amiga espanhola num bar com bebidas fumegantes. Ou dos fins de dia no miradouro mais bonito de Lisboa. Ou das passeatas nesta e noutras cidades. Ou...

Publicado por Cris em 09:58 PM | Comentários (2)

abril 10, 2004

imagens da enfermagem

The Attentive Nurse / Meal for a Convalescent – 1738Jean Baptiste Siméon Chardin (1699-1779), foi um ilustre pintor francês do séc. XVIII e um mestre em naturezas mortas. Este quadro ilustra uma enfermeira a preparar um ovo cozido para um convalescente. A expressão facial da enfermeira revela concentração na sua tarefa e sugere que a sua mente está ausente. Dada a época, constata-se que a mulher retratada não é uma enfermeira moderna, cientificamente treinada, será antes uma serviçal ou um membro da família do convalescente.

Muito mudou na enfermagem ao longo do tempo, contudo, a imagem do médico como curador e da enfermeira como cuidadora, permanece na mente de muitos.
De qualquer modo, a prática da enfermagem e a prática médica têm evoluído em diferentes sentidos. A enfermagem exprime um sentido do cuidar que se traduz num acompanhamento, num papel de ajuda à pessoa limitada pela doença. A enfermagem caracteriza-se por uma lógica de atendimento da pessoa na sua globalidade, centrando-se nela como agente participante da sua saúde.

Publicado por Cris em 12:01 AM | Comentários (2)

abril 04, 2004

a praia da china

Não consigo explicar precisamente os motivos que me levaram a abraçar esta profissão. Sei o que procurava, compreendo o fio condutor desta escolha. No fundo, procurei uma profissão com um sentido e identidade próprias, que conciliasse aspectos técnicos e humanos, aspectos científicos e filosóficos. Não posso é negar a influência que algumas séries e filmes dos anos 80/90 exerceram sobre as minhas opções de vida. Por exemplo, a série sobre a enfermagem no Vietname, A Praia da China.

Esta série, produzida pela cadeia americana ABC, retratava a realidade duma base americana no Vietnam. Para além de proporcionar uma visão crítica sobre a guerra e sobre os países envolvidos, permitiu obter uma visão sobre as vivências do pessoal de enfermagem em clima de guerra. Mais do que se resumir à típica série pontuada com situações de drama e romance, esta série possibilitou focar a atenção na perspectiva feminina da guerra, na actuação das mulheres e, nomeadamente, nas enfermeiras.

Colleen McMurphy (Dana Delany) era a enfermeira principal desta base e era da sua experiência e perspectiva analítica que nascia e se desenrolava a acção. K.C. (Marg Helgenberger) era uma prostituta atraente mas endurecida pela guerra, da qual obtinha proveitos económicos e comerciais. Da interacção destas duas personagens centrais e do restante corpo de personagens, emergia uma acção rica em dramas éticos de vida/morte, em relações de amizade e de amor nascidas e tragicamente interrompidas.

Algumas das cenas apresentadas foram ficcionadas a partir de relatos de enfermeiras que participaram na guerra do Vietnam e de quem falarei num post posterior. O tema musical escolhido foi "Reflections", um êxito de Diana Ross and the Supremes, 1968. A Praia da China é uma série que continua a suscitar controvérsia e tem um lugar de destaque na história televisiva.

Publicado por Cris em 08:51 PM | Comentários (3)

abril 02, 2004

cuidar de quem cuida

Tem os olhos rasos de água e é por entre soluços que me conta:

Não estava nada a contar com a doença dele. Trabalhei tantos anos como enfermeira e não me sinto nada preparada para lidar com isto. Reformei-me pensando que ia passear, desfrutar um bocadinho e olha ... Nem queiras saber o que passo ... todo o dia, todos os dias ... Ele não consegue fazer nada sozinho e eu desfaço-me em atenções e cuidados ... Passa o dia a dizer que está muito cansado, que não tem apetite ... já nem sei o que fazer para ele comer ... vês como ele está, tão magro ... parece que não quer viver e eu não aguento ... é que são quase 40 anos, 40 anos de casados, percebes?!

Percebo... Percebo que os doentes não são os únicos a necessitar de cuidados e de atenção. Cuidar, amar alguém que está doente é uma tarefa muito difícil que implica não só um desgaste físico, como um carga emocional muito forte, que se reflecte, em última instância, no bem-estar dos que são alvo dos seus cuidados. É por isso muito natural que a saúde física e mental destes prestadores de cuidados se ressinta. Os prestadores de cuidados têm que ser alvo duma atenção e apoio especial. São eles que, em última análise, estimam e cuidam do doente sem deter grandes conhecimentos nesta área de promoção da saúde e do bem-estar.

Tristemente, o desenvolvimento de redes de apoio aos doentes e seus familiares não é prioritário. Torna-se necessário reconhecer a necessidade de criar programas de apoio adequados às necessidades e exigências destes parceiros de cuidados.

Publicado por Cris em 07:55 PM | Comentários (4)