março 28, 2004

os turnos e os ritmos circadianos

Ser enfermeiro significa ter o seu ritmo de trabalho/descanso frequentemente alterado.
Com efeito, os enfermeiros devem trabalhar 35h ou 42h (regime de horário acrescido) semanais distribuídas por turnos de 8 horas, que podem ser praticadas no período da manhã (das 8 às 15.30 horas), da tarde (das 15 às 23 horas) e da noite (das 22.30 às 8.30 horas), podendo variar ligeiramente em cada instituição. O número de horas de trabalho pode ainda prolongar-se por diversos motivos, tais como excesso de actividades a realizar, tempo gasto na passagem de turno (reunião de transmissão de informação), atraso ou ausência dos colegas, ou ainda por situações inesperadas e urgentes relacionadas com os doentes.
Verifica-se, porém, que o acréscimo de horas de trabalho fora do horário normal de serviço dos enfermeiros, não é objecto de qualquer compensação.

O trabalho por turnos é uma prática frequente e necessária, concebido para satisfazer as necessidades dos utentes. Trata-se de um tipo de horário de trabalho que afecta consideravelmente os técnicos de saúde já que diversos estudos realizados têm demonstrado que os trabalhadores que praticam este tipo de horário apresentam, com mais frequência, queixas de fadiga crónica e outras alterações. As influências são tanto biológicas como emocionais, devido às alterações dos ritmos circadianos, do ciclo sono-vigília, do sistema termo-regulador e do ritmo de excreção de adrenalina. Para além disso os enfermeiros são confrontados com situações emocionalmente intensas, tais como, vida, doença e morte, as quais causam ansiedade e stress físico e mental.

Os ritmos biológicos são vários, o que é tão verdade para os animais como para os vegetais. Os mais estudados dizem respeito às 24 horas, ou a um dia, tendo Halberg em 1959, criado o termo circadiano. A palavra circadiano provém do latim circa diem, "em torno do dia". Um ritmo circadiano tem a duração de 24h com um desvio de ±4h. Portanto, um ritmo circadiano pode corresponder a um intervalo de 20 a 28 horas. Quando há uma alteração horária na relação dia-noite, assim como alterações de factores sociais, horários de refeições, etc, estamos perante uma dessincronização, em que diferentes ritmos previamente sincronizados cursam em períodos diferentes.
Por exemplo, o nível de actividade flutua ao longo do dia, tendo um pico a determinada hora do dia, nuns casos de manhã cedo, noutros casos para o fim da tarde. Diversos estudos sugerem que os indivíduos noctívagos se adaptam bem aos turnos da noite e mal aos turnos da manhã, enquanto os indivíduos matinais se adaptam bem aos turnos da manhã e mal aos turnos da noite (dormem menos).

Outros autores afirmam que os trabalhadores do turno da manhã, tendem a acordar muito cedo para trabalharem, enquanto a hora de deitar não é antecipada. Disto resulta uma diminuição na duração de sono, sono paradoxal. Os trabalhadores do turno da tarde não sofrem alterações significativas no seu sono, pois embora se deitem mais tarde não necessitam de acordar cedo. Os trabalhadores do turno da noite têm grandes perturbações no sono diurno, tanto na sua estrutura quanto na sua duração, que é bem menor que a de um sono nocturno.

Para além das implicações da permanente alteração do ritmo circadiano de cada um, os enfermeiros encontram-se na posição de ter exigências emocionais elevadas no seu trabalho, na privação emocional e social fora da sua ocupação. Enquanto trabalhamos por turnos a vida social e familiar decorre ininterruptamente num curso difícil de acompanhar. Daí que tendamos – na minha visão, sublinhe-se – a escolher amigos e companheiros da mesma profissão ou com estilos de vida semelhantes. É francamente mais fácil encontrar um nível de compreensão e empatia entre os que enfrentam as mesmas dificuldades.

Tal como muitos outros profissionais, deparei-me muitas vezes com o cansaço extremo duma ou de várias noites de trabalho. Em certas ocasiões é difícil acompanhar o curso normal da vida social e familiar, está quase sempre dependente de o colega aceitar a troca.
Mas, para mim, mais difícil que trabalhar na noite de Natal ou manhã de Ano Novo, é raramente poder fazer planos a longo prazo.

Publicado por Cris em 04:17 PM | Comentários (7)

março 23, 2004

Negligência?

Por vezes ouvimos histórias que nos deixam com os cabelos em pé...
Eis uma com que me deparei um dia destes:
Uma criança de quatro anos de idade recorreu ao hospital às 2 horas da manhã por traumatismo craneano, ocorrido havia cerca de 30 minutos. Segundo informação disponibilizada pela mãe, a criança estava àquela hora numa festa de anos infantil, supervisionada por quatro ou cinco adultos, não estando ela presente. «Alguém atirou a criança ao ar e não teve tempo de a apanhar, indo bater com a cabeça no chão de mosaico» (sic mãe).

Não querendo fazer juízos de valor, esta foi uma situação que me fez pensar... o que devo pensar? Negligência? A minha mentalidade estará um pouco desajustada da realidade? Tudo isto é normal e eu já deveria estar habituada e não me surpreender com situações deste género?

Publicado por geraldinha em 12:03 AM | Comentários (7)

março 21, 2004

uma visão (sur)realista da saúde


A Enfermeira, de José Perez
A Enfermeira, de José Perez

A enfermagem tem sido definida como ciência e como arte. No quadro acima, José Perez - que se auto-retratou como o doente - reforça a ideia de que a enfermagem, mais do que somente técnica, incorpora elementos de espírito, mente e imaginação.

Perez é autor de uma obra demonstrativa duma visão peculiar da medicina e da interacção entre os que curam, os que sofrem, a doença, a morte.
Os seus quadros merecem uma observação minunciosa, tal a quantidade de deliciosos pormenores que contêm. Alguns deles, como os dois aqui revelados, podem ser apreciados aqui.

Serviço de Urgência, de José Perez
Serviço de Urgência, de José Perez
Publicado por Cris em 12:24 AM | Comentários (6)

março 20, 2004

Bertolt Brecht

Retrato de Bertolt Brecht por Rudolf Schlichter (1921)
Dramaturgo e poeta alemão, nasceu em Augsburg em 1898 e morreu em Berlim em 1956. Serviu na I Guerra Mundial como enfermeiro, interrompendo para isso os seus estudos de medicina.
Começou a carreira teatral em Munique, mudando em seguida para Berlim. Durante a II Guerra exilou-se na Europa e nos EUA. Acusado de actividade anti-americana durante o macarthismo, voltou à Alemanha e fundou, em Berlim Oriental, o teatro Berliner Ensemble. Afirmando que, em vez de hipnotizar o espectador, o teatro deve despertá-lo para uma reflexão crítica, utilizou processos de distanciamento, que rompiam a ilusão, lembrando ao público que o teatro não é a vida real.


Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Publicado por Cris em 12:45 AM | Comentários (2)

março 19, 2004

medicina hilariante

Contra as cistites:

Esta afecção urinária, que se manifesta por um ardor ao urinar, tem quase sempre duas origens:

Uma infecção banal, quase sempre de colibacilos. Estes, hóspedes do intestino e das vias urinárias, tornam-se subitamente agressivos, porque o organismo está enfraquecido ou porque as urinas se putrefazem (...)

(...)Outra origem: uma irritação das mucosas, do tipo «eczema», ao longo da árvore urinária e na bexiga; trata-se então de uma perturbação psicossomática, doença de desequilíbrio nervoso semelhante à alergia. (...) Aqui, os colibacilos são secundários na irritação: desta vez trata-se de «cistalgias de urinas claras» (...), mais frequentes na mulher nervosa, sobretudo quando está muito contrariada ou ansiosa, mas que às vezes também ataca o homem, quase sempre os indivíduos que sofrem de anafrodisia, isto é, que não experimentam prazer no acto sexual.

A perturbação da psicologia e da sexualidade provoca a ardência das mucosas urinárias quando dos períodos de angústia; estas mucosas infectam-se em seguida, mas apenas em seguida ...

101 Segredos de Medicina Natural
Dr. Peron-Autret (1975)

Publicado por Cris em 12:57 AM | Comentários (0)

março 16, 2004

enfermeiros na poesia - II

VI

A que vens, solidão, com teu relógio
de ponteiros de visgo, de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens, ó camarada solidão?

Companheira, amiga, até amante,
até ausente, ó solidão, te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás, ó solidão!

A que vens, enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?

A que vens, solidão? Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto, encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum, ó solidão!

Alexandre O'Neill
(Seis poemas confiados à memória de Nora Mitrani)
in Poemas com endereço (1962)

Publicado por Cris em 12:54 AM | Comentários (2)

março 14, 2004

estágios pagos

A carência de enfermeiros impulsionou a abertura de várias escolas privadas de enfermagem por todo o país, sendo que este fenómeno carece de uma ampla discussão em torno da qualidade dos profissionais formados nestas instituições particulares. O que de momento importa é que - tal como o DN refere - a licenciatura de enfermagem tem que conter metade da carga horária em ensino prático, o que, como é fácil concluir, dificulta muito a escolha de campos de estágio adequados às necessidades dos alunos.

O que é deveras preocupante, é que já há hospitais SA a receber alunos de enfermagem para estágios mediante o pagamento de uma percentagem da propina. É isso mesmo, os hospitais SA são unidades públicas com gestão empresarial e, como tal, «são incentivados a encontrar formas alternativas de financiamento». Agora vejamos: as escolas privadas contornam o problema dos estágios canalizando parte das propinas para os hospitais (SA) através de protocolos negociados com as administrações; as escolas públicas poderão ser preteridas na escolha de campos de estágio, por não proporcionarem fontes de financiamento alternativo.

Se há quem afirme que os alunos do ensino público estarão sempre em primeiro lugar, outros encontrarão neste processo uma fonte apetecível de financiamento.

Publicado por Cris em 08:37 PM | Comentários (5)

março 10, 2004

Ah, Mulher(es)!

Costumo dizer que não basta ser mulher, é preciso ser super-mulher. A prova vem no DN de 2ª feira onde se chama a atenção para o desequilíbrio entre homens e mulheres: «As mulheres precisam de um curso superior para terem um salário próximo aos dos homens». Isto acontece, avança o DN, «num país onde o trabalho é mal remunerado».

As desigualdades são nítidas não só a nível salarial, mas também a nível de chefias que, só ocasionalmente são ocupadas por mulheres. Por outro lado, os homens dispõem de mais tempo para lazer ou para se dedicarem à actividade profissional. Entretanto, a maioria das mulheres, com o casamento e a maternidade, sofrem uma diminuição do tempo de trabalho, um aumento da duração do trabalho doméstico (não remunerado) e, consequentemente, uma desvalorização profissional. Se a tudo isto associarmos uma fraca protecção da maternidade e da criança, é fácil perceber que, assim, não é fácil ser mulher.

Mais logo, muitas mulheres correrão em direcção ao comboio ou autocarro, preocupadas com os filhos que as aguardam nas amas ou creches; preocupadas com a organização doméstica; preocupadas... Para trás, muitos homens caminharão em direcção ao autocarro ou comboio, seguros de um jantar apetitoso; seguros de um lar harmonioso.

É caso para dizer: Ah, Mulher(es)!...

Publicado por Cris em 09:57 PM | Comentários (2)

março 07, 2004

Diagnóstico de cancro

Comunicar o diagnóstico de cancro não compete ao enfermeiro. Este assume a rectaguarda, é o que dá apoio, que ouve as preocupações, os «Porquê eu?», «Porquê a minha filha? Porque não eu?»…
O enfermeiro vivencia o desenrolar da doença desde o diagnóstico, até – por vezes – à morte.

Uma das experiências que me marcou foi a de uma doente de 22 anos, muito irreverente, independente, rebelde e por vezes agressiva na maneira como lidava com as pessoas que a rodeavam.
Uma certa manhã chegou junto dela alguém que não se identificou e lhe disse «vamos cortar esse cabelinho», ao que ela reagiu de forma agressiva, exigindo que a senhora se retirasse imediatamente.
Foram esquecidos os sentimentos da doente, o estado de fragilidade, a alteração de imagem que ela iria sofrer e o impacto de ser alguém estranho a fazê-lo.

Muitas vezes o doente, através de certas palavras, de atitudes, lança pedidos de ajuda.
Este está perante uma situação completamente nova e aterradora, a precisar de apoio, orientação e respostas de alguém que já viu muitos casos idênticos. Situação em que lhe é dada uma grande quantidade de informação que, muitas vezes, leva tempo a assimilar. Nesta fase, as perguntas são muitas e as respostas muito poucas, ou difíceis de dar…

– Eu só queria ter a certeza de que me vou curar...
– Eu tenho um filho pequeno, uma casa para pagar, como é que eu vou viver o momento, o dia-a-dia, se quero ver o meu filho crescer?…

Se alguma vez passar por ti, e estiveres a procurar o meu olhar para pedir ajuda e não o encontrares, chama por mim…

Publicado por Cissi em 12:19 AM | Comentários (5)

março 06, 2004

Motivação

Dizem-nos autores como Chiavenato, que o envolvimento e a colaboração dos indivíduos numa organização são aspectos fundamentais para que se tenha sucesso. Para tal, é indispensável investir na motivação e no desenvolvimento de um bom clima organizacional. Isto porque uma pessoa motivada tem atitudes dinâmicas e fica facilmente disposta a intervir, dando menos relevância aos obstáculos do que aos objectivos pretendidos.
Também o papel de líder e o estilo de liderança do grupo de trabalho são fundamentais para o bom desenvolvimento e crescimento de uma equipa.
Podemos então concluir que, se estamos perante alguém motivado e com um bom ambiente de trabalho, é provável que os resultados daquilo que faz sejam bons.

Estava de volta de umas coisas sobre este tema, para um trabalho que estou a terminar, quando me lembrei de colocar este post.
Parece muito simples, ao ler alguma bibliografia sobre este assunto, saber quais os elementos necessários para ter indivíduos motivados. Mas, tentando passar à prática, a situação complica-se... Os factores constrangedores são mais que muitos.

Porque é que quando actuamos em grupo, mesmo que seja para melhorarmos as nossas condições de trabalho, somos tão resistentes à mudança?

Publicado por geraldinha em 10:35 PM | Comentários (1)

março 04, 2004

vidas reais

I
Entrou na sala segurando, trémula, chorosa, a folha de tratamento: – A médica disse-me para vir aqui fazer um tratamento... – É a 1ª vez? A médica explicou-lhe alguma coisa? – Perguntou a minha colega. – Vou fazer quimioterapia... Acho... Estava tão assustada que acho que não percebi bem... – Está sozinha? Não trouxe nenhum acompanhante? – O meu marido está na sala de espera... Ele nunca vai às consultas comigo... Ele é muito forte, muito seguro. Gostava muito que ele ouvisse comigo essas explicações, mas ele está lá fora, na sala de espera...
II
Ele estava de pé, segurando-lhe a mão, enquanto eu puncionava a veia do outro braço dela. Só saiu quando o tratamento parecia perfundir sem problemas. Foi quando ela me agarrou a mão e perguntou: – Cris, está apaixonada, ama profundamente alguém? Sabe, encontrei este amor antes da recaída da doença e é o que tem dado sentido à minha vida. Sem ele não teria sido capaz de suportar tudo isto de novo. À noite, tiro a peruca, enrosco-me no corpo dele, esqueço-me das náuseas e das equimoses nos braços, esqueço-me da dor. Ele ama-me... E eu sou feliz!
Publicado por Cris em 11:05 PM | Comentários (7)

março 02, 2004

Walt Whitman

Walt Whitman (1819-1892)Nasceu em Long Island, New York, em 1819 e morreu em Camden, New Jersey, em 1892. Autodidacta, foi aprendiz de tipografia, discreto jornalista e enfermeiro na Guerra da Secessão, onde foi reconhecido pelos cuidados a milhares de soldados doentes e feridos nos hospitais de Washington, D.C.


Poeta de renome, a sua influência tem-se revelado imensa, quer na prática de muitos activistas sociais, quer na obra de numerosos poetas e de outros escritores do século XX.





E quanto a ti, Morte, e a ti, amargo abraço da mortalidade, é inútil tentarem alarmar-me.

A parteira acorre ao seu trabalho sem demora,
Vejo a mão pressionando, recebendo, sustendo,
Reclino-me nos umbrais das delicadas portas flexíveis,

E observo a saída, e observo o alívio e a libertação.

E quanto a ti, Cadáver, penso que és bom adubo mas isso não me ofende,
Aspiro o doce perfume das rosas brancas crescendo,
Toco as folhas como lábios, toco o peito lustroso dos melões.
E quanto a ti, Vida, reconheço que és o resíduo de muitas mortes,
(Não duvido que eu próprio já morri dez mil vezes).

Escuto o vosso murmúrio, ó estrelas do Céu,
Ó sois, ó erva dos túmulos, ó perpétuas transferências e promoções,

Se não dizeis nada que poderei eu dizer?

Do turvo charco na floresta do Outono,
Da lua que desce os precipícios do crepúsculo sussurrante,
Caí, centelhas do dia e do acaso! caí sobre as hastes negras que apodrecem no estrume!
Caí sobre o lamento incoerente dos ossos secos.

Levanto-me da lua, levanto-me da noite,
Percebo que a luz débil é o reflexo do meio-dia,
E desemboco no que é firme e central desde o rebento grande ou pequeno.

extraído de Folhas de Erva
(tradução de José Agostinho Baptista)

Publicado por Cris em 11:56 PM | Comentários (3)