maio 14, 2005

Relato de enfermeira

São duas da manhã de um qualquer fim-de-semana, e, enquanto muitos dormem e outros tantos se divertem, uns quantos lutam contra o sono e o cansaço e vêem os ponteiros do relógio avançar por entre soros, seringas, instrumentos cirúrgicos, fármacos, unidades de sangue e outros objectos que polvilham outra noite de trabalho. Nesta casa grande, velha e cinzentona, que muitos temem e a outros oferece nova esperança, há pessoas cuja profissão consiste em cuidar dos doentes, tratá-los e ouvir as suas queixas - porque o sistema não funciona e se esteve não sei quantas horas para se ser atendido num banco desconfortável quando até se está cheio de dores. Não é fácil trabalhar aqui. São inúmeros os rostos dos que ajudamos a viver, e é por eles que aqui contínuamos, umas vezes mais bem dispostos que outras, mas sempre cá. A qualquer instante desta noite, o telefone toca. Houve um acidente de viação na Segunda Circular e as vítimas virão para o Hospital de Santa Maria (HSM). No serviço de urgência está tudo a postos. A equipa do INEM entrega os sinistrados. Todos os esforços estão agora concentrados em torno de dois seres humanos que se equilibram no trapézio sem rede. Uma das vítimas, após observação, vai de imediato para o bloco opeatório do serviço de urgência. São agora quatro da manhã. Os mesmos rostos, ainda mais cansados, estão dentro da sala operatória por entre batas e toucas verdes, luvas e máscaras que apenas deixam a descoberto o olhar atento ao corpo que deles agora inteiramente depende. Se os anjos-da-guarda existem, então somo-lo para muita gente. São 6h30. O politraumatizado vai para a unidade de cuidados intensivos. Good news are no news. Tornámo-nos conversa de café quando fomos considerados um dos piores hospitais do País. Infelizmente, nós, portugueses, somos assim, gostamos de valorizar o que está menos bem e raramente nos lembramos que, a toda a hora, muita gente reúne esforços para que o jogo da vida se inverta. Foi notícia que somos o quarto pior hospital do País. Mas não foi notícia que recebemos doentes recusados noutros hospitais por falta de meios, nem a quantidade de pacientes que atendemos em média diária na urgência. O nosso bom trabalho não é notícia, mas sem ele muitas seriam sem dúvida as más notícias.

Rita Filipe - 14 de Maio de 2005

In Grande Reportagem nº 227 - Cartas (Revista integrante do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias)

Publicado por geraldinha em maio 14, 2005 03:48 PM
Comentários

É a primeira vez que visito este blog e claro que vou voltar.
Parece-me que quem já passou por um serviço de cuidados intensivos não sai de lá a dizer mal de nada. O que não sei é como aguentam, sobretudo os(as) enfermeiros(as). Nalguns casos, sente-se alguma desorganização de serviço que me parece que pode ser facilmente ultrapassado com cursos de formação a nível do pessoal auxiliar. Já passei pelo SO de Cascais e pela UCIR de St. Maria e só tenho a dizer bem. A UCIR é de 5 estrelas.
Força para todos vocês.

Afixado por: Cecília em junho 5, 2005 07:58 PM

Muito interessante este relato. Ainda bem que existem pessoas que ultrapassam o rotulo (ultimos da lista) que os senhores do ministerio lhes querem dar.

Afixado por: pedrojosesilva em maio 20, 2005 01:58 AM

Simplesmente achei fantástico o blog!!
Gostaria de parabenizá-las pela dedicação!
Sou Enfermeira em Goiânia e como vocês amo muito o que faço!!
É gratificante encontrar espaços como esse!!
Parabéns!

Afixado por: Carolina em maio 17, 2005 06:46 PM

Primeiramente queria parebeniza-la pela dedidacao a profissao que parece ser satisfatoria. E também pelo blogger que está perfeito.
Sou estudante de enfermagem, estou no primeiro semestre ainda, e moro em Salvador-BA.
Admiro por ser uma profissional dedicada e que se preocupa com a vida das pessoas. Pessoas assim, levo como referencias para o futuro, quando começar a exercer a profissao.
Parabéns mais uma vez, pelo blogger e pela profissao que escolheu.
Beijos Mariana

Afixado por: Mariana Morais em maio 17, 2005 12:52 AM

Já aqui deixei o meu testemunho, a minha curtíssima experiência de internato.
Com o meu "olho de auditor" notei deficiências gritantes na organização hospitalar. Não haviam condições de segurança, comodidade, funcionalidade, etc. no Hospital dos Capuchos (e ainda hoje não há).
Não sei se o Hospital dos Capuchos é melhor ou pior que o de Santa Maria, mas para mim é o melhor Hospital do mundo.
Nele fui tratado com a melhor das atenções (possível, mas a melhor). Há o factor humano que altera tudo. Médico, enfermeiros e auxiliares fizeram um excelente trabalho apesar das deficientíssimas condições.
Se fosse eu a mandar, de facto muita coisa tinha que mudar... Mas isto acho que (quase) todos os políticos pensam até esbarrarem com um sistema estatal todo emprerrado.
Beijo

Afixado por: Nuno em maio 14, 2005 07:02 PM