Lidar com doentes oncológicos tem o seu impacto na vida do enfermeiro. Mais do que lidar com a morte, lida-se com o sofrimento e com a angústia do doente. Inconscientemente confrontamo-nos com os nossos próprios receios e ansiedades. Esse contacto tão permanente fez-me repensar a vida.
Sem querer, fui-me tornando mais tolerante, mais resistente mas, simultaneamente, mais sensível e mais emotiva em relação a determinados aspectos. Passei a valorizar o presente, os sentimentos e os afectos enquanto tento ignorar a falta de solidariedade, a solidão e o individualismo que caracterizam a nossa sociedade.
Retempero as forças nos gestos simples e ternos dos que me amam e respeitam. Aprendi a apreciar coisas simples e belas presentes numa vida que é, ao mesmo tempo, preciosa e curta. Construo um dia atrás de outro com o desejo de contribuir para melhorar a vida de algumas pessoas sem, contudo, ter a certeza de o conseguir...
Entretanto, deixo-me deslumbrar pelo esvoaçar dum bando de aves migratórias sobre o Tejo...
Publicado por Cris em janeiro 8, 2005 08:59 PMInfelizmente a solidariedade só funciona em casos pontuais como por exemplo a ajuda à zona afectada pelo tsunami. É pena que não seja um valor constantemmente presente.
A sociedade atira-nos cada vez mais para a concorrência com o próximo, promovendo assim o individualismo e claro solidão.
Cabe a cada um de nós contrariar este sentido, é difícil estando inseridos "na sociedade", mas temos que demonstrar aos outros que não tem que ser assim. Ah, e demonstrar verdadeiramente, com sinceridade.
Ao demonstrar verdadeira solidariedade ajuda-se o próximo a lidar com o mais doloroso, talvez até com os problemas oncológicos. E aqui aplico o "talvez" pela simples razão de nunca ter vivido verdadeiramente esse problema e por duvidar que em fase terminal seja possível superar o que quer que seja... Já agora, não será um acto de solidariedade acabar com o sofrimento de uma pessoa com problemas oncológicos em fase terminal?
Beijos
A finitude humana é uma realidade, muitas vezes evitada. Trabalhar com doentes oncológicos, com a perda, a morte,todos os dias, pode trazer (caso se consiga) exactamente este revalorizar da vida, que a Cris descreve. Um estar mais atento e mais aberto ao cada dia. Até ser mais tolerante, pois as coisas redimensionam-se.
Obrigado pela partilha.
Afixado por: LN em janeiro 10, 2005 08:55 AMFico feliz pelas tuas descobertas...
Afixado por: karlwork em janeiro 9, 2005 10:58 PM