SONS QUE PASSAM
1
Cada um é para o que nasce mas aquele visivelmente não nascera para ter uma gangrena gasosa e afinal não tinha mesmo outra coisa senão a pata que já não tendo lhe doía como burro e em vez dela um buraco ou em vez deste umas esquírolas de osso que não doíam o que doía era a pata fantasma a perseguição da pata com cãibras por um mau jeito qualquer e em baixo a gangrena a ascensão do podre esse único imponderável seu que não doendo de todo o mataria numa noite
2
estávamos a dormir na camarata grande quando o da gangrena berrou e logo dois enfermeiros foram por ali fora pelo corredor aos tropeções a dar nas portas como se acender a luz violasse um código horrendo e se calhar durando a coisa três minutos antes de o analgésico fazer efeito uns sopros mastigados simultaneamente com o crescendo das vozes (os enfermeiros) acerca da melhor maneira que um deles havia um de voz mansa agradabilíssima ao ouvido e o interlocutor enquanto na camarata o fumo dos AC e dos Swing e a seguir o que dormia ao pé do armário «boa noite» e emborcou o focinho para a parede
3
o da gangrena acordou às seis com o seu berro muito maior
caem do tecto largas porções de estuque
aterrorizado vou por água tremo entorno o copo de plástico
dos dois enfermeiros há agora só um bêbado de sono «ó pazinho» diz ele
magoa-se na porta magoa-se na manivela e diz «estes gajos»
4
o da gangrena morreu às sete e meia
quando acordei enrolavam os lençóis numa trouxa e o cobertor fanavam-lhe os pertences de cima da mesa de cabeceira
um alferes de Micula ainda pôs a hipótese de nos queixarmos ao médico de dia o que é são chatices atrás de chatices a tropa chacun governa-se quem lerpa não repete a sopa
«sons que passam» lembrei-me: um título inquietante do sr. Thomaz Ribeiro datado de Parada de Gonta a 30 de Agosto de 1867 «cantos que só têem affinação no theatro modelado pela acustica do infinito»
Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular,
Edições Asa, Outubro de 1997.
Viva!
Só para saudar esta casa e agradecer apoio(s).
Um abração do
Zecatelhado
Gosto muito desta categoria dos enfermeiros na poesia :) beijinhos
Afixado por: jacky em novembro 23, 2004 07:44 AMObrigado pelas visitas e pelo apoio dado no momento complicado que atravesso.
Um abração do
Zecatelhado