outubro 24, 2004

doutores e engenheiros

Substituímos a sociedade de classes pela sociedade de títulos. Somos «marcados» pelo título. Durante muitos anos em Portugal, ministros só doutores. Um título abre muitas portas em Portugal (...)

As palavras de Miguel Poiares Maduro, publicadas numa coluna do DN, fizeram-me lembrar as de uma professora de enfermagem que defendia a utilização de doutores, engenheiros e outros títulos, quando nos dirigíssemos a doentes: «Não podemos destituir o doente do seu papel social e profissional». Concordo ... mas só numa ínfima parte.

O ser humano é um ser global, ao qual deve ser reconhecida a identidade cultural, social e profissional. Mas, ao contrário do que esta professora defendia, a utilização do título sotor ou sr. engenheiro só pretende afirmar uma distinção, marcar uma diferença ou destacar uma posição de privilégio.

Na prática da prestação de cuidados, a utilização sistemática de títulos pode, eventualmente, suscitar dúvidas ou prevaricações. De início, o doente pode considerar que os doentes doutores e engenheiros são alvo duma atenção especial ou dum atendimento melhorado.

Por discordar seriamente de todas as situações que possam suscitar dúvidas quanto ao cuidado com o doente, defendo – assim como a maioria dos profissionais, julgo – a utilização do nome pelo qual o doente gosta de ser tratado, baseando-nos nas elementares regras de respeito e dignidade do ser humano.

Publicado por Cris em outubro 24, 2004 12:19 AM
Comentários

O debate que se gerou em torno deste post revela a polémica e a delicadeza deste assunto.
Saliento, mais uma vez, que o doente deve ser chamado pelo nome pelo qual é conhecido e pelo qual gosta de ser tratado, mesmo que isso implique utilizar um título profissional. «O título que o acompanha (o doente) é naturalmente parte integrante dessa vida, mais do que um mero Dr, Eng, Enf... representa a sua função na sociedade» (Spring). É indiscutível. E, tal como o colega Sérgio Deodato refere: «o nome é, para a nossa ordem jurídica, uma direito de personalidade legalmente protegido, que o enfermeiro tem o dever de respeitar».
No entanto, paralelamente, podemos pensar ou reflectir «na necessidade que algumas pessoas sentem em diferenciar-se através do titulo profissional» (pedrojosesilva).
Quanto à forma como as pessoas de quem cuidamos se dirigem a nós, enfermeiros, só posso falar pessoalmente. Não me choca que se dirijam a mim pelo nome pelo qual sou conhecida e sem o título profissional. A minha prática tem demonstrado que isso decorre duma relação terapêutica baseada na empatia e no respeito.

Afixado por: Cris em novembro 23, 2004 11:23 PM

Sr. dr. deixe-me por um penny-rose no seu engenheiro!!!! Por favor!!!

Afixado por: Nurseman em novembro 21, 2004 11:28 PM

Spring, sim sou enfermeiro, discuto isto aqui porque estamos entre colegas...
Mais uma coisa spring... vá dormir, sim?

Afixado por: En?gma em novembro 21, 2004 11:26 PM

Eu concordo com o princípio de que cada pessoa, independentemente do contexto em que se encontre, deve ser chamada pelo nome que gosta de ser chamada.
Mas, porquê este princpio? Qual a razão de ser que lhe está subjacente? Provavelmente, o facto do nome identificar uma pessoa perante os outros.É uma forma, entre outras, de cada pessoa se relacionar com os outros. O nome faz parte de si, é inerente a si, inclui-se na sua dignidade.A dignidade de cada um, se quisermos a expressão muitas vezes repetida, a dignidade da pessoa humana, também abrange o nome. De tal forma que o nome é, para a nossa ordem jurídica, uma direito de personalidade legalmente protegido, que o enfermeiro tem o dever de respeitar.
Ora, da mesma maneira que o nome nos identifica, também o título pelo qual somos conhecidos, é um elemento que traduz o nosso papel social, atavés do qual somos reconhecidos pelos outros.
E é um elemento de identificação que vem "agarrado" ao nosso nome.
Será legítimo, no momento em que entramos no hospital, retirarem esse elemento de identificação que precede o nosso nome. Haverá alguma razão para, numa altura de maior vulnerabilidade, sermos despojados de uma parte do nosso nome, ainda por cima à luz de um princípio de que pretendem chamar-nos pelo nome que mais gostamos de ser chamados?
Parece que o que se pretende é chamar pelo nome que se gosta de ser chamado, mas retirando-lhe
aquilo que não gostamos ou queremos chamar. Não parece incoerente?
E nós? Nesta lógica também convidamos as pessoas de quem cuidamos e os outros profissionais com quem trabalhamos para nos chamarem o nome que mais gostamos, SEM TÍTULO PROFISSIONAL?
Não será preconceito, apenas?

Afixado por: Sérgio Deodato em novembro 16, 2004 11:55 PM

Depois do post anterior só me ocorre um comentário: que triste é ler estas palavras escritas por um/a enfermeiro/a (!?), sobre pessoas, no caso enfermeiros, que nos merecem todo o respeito, independentemente de concordarmos ou não com os seus métodos ou teorias. Além disso, generalizar o "ódio" pelas professoras que são todas uma "tolas varridas" parece-me mais do que desapropriado e mesmo ofensivo para todos nós. Nas nossas palavras e actos reside aquilo que somos...

Afixado por: Spring em novembro 15, 2004 01:57 PM

Lembro-me dessas teorias tolas das professoras de enfermagem, em querer que utilizassemos o títulos quando nos dirigíamos ao doente... claro que as professoras de enfermagem mais antigas não passam de umas tolas varridas, sem cultura que toda a gente odeia... embora parece que são as únicas no mundo que ainda não se aperceberam de tal situação... que enfezadas!!!

Afixado por: En?gma em novembro 13, 2004 11:22 PM

Isto faz-me pensar! Tudo o que os enfermeiros fazem quando um doente está no hospital, é tentar não quebrar os seus elos de ligação com a Vida (não apenas vida corporea, mas todas as circunstancias que a rodeiam), e o titulo que o acompanha é naturalmente parte integrante dessa vida, mais do que um mero Dr, Eng, Enf... representa a sua função na sociedade. Como se não bastasse já, ser despido das suas roupas, separado da familia e amigos... Acho ainda, sem inavalidar o que disse anteriormente, que devemos estar atentos aos outros doentes, porque se podem sentir com menos atenções por serem apenas o Sr. José. Já agora porque não partilhar isso mesmo com os Drs, Engs, Enfs, que temos internados nos nossos hospitais, quando achamos que podemos estar a perturbar os outros doentes?

Afixado por: Spring em novembro 1, 2004 12:28 PM

Isto dava pano para mangas. O Portugal de hoje é uma feira de vaidades em desfile, uma mascarada pegada com Drs. e Engºs, para a esquerda e para a direita. Até os bachareis querem ser assim tratados.
Nos anúncios necrológicos~, então é um nojo:
" Sr. Dr. Zé dos Azóis de Tito Cunha e Menezes, vinte anos de profunda Saudade..."
Hoje já nem há operários ou serventes, foram substituídos pelo termo "Técnico X".
Penso que é urgente reparar a mioleira humana porque avariou de vez.

Um abraçao do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em outubro 30, 2004 02:53 PM

A minha sensibilidade aproxima-se daquela que a Cris expressou. Contudo por vezes faço essa distinção quando noto que isso está a fazer diferença para o doente. já tive um caso de um juiz, que começou a ficar deprimido por causa da questão da "perda de estatuto" dentro do Hospital. Disse ele, lá fora todos me tratam por Sr. Doutor Juiz. Passei a chama-lo assim...claro que me faz pensar na necessidade que algumas pessoas sentem em diferenciar-se através do titulo profissional. estamos longe de uma sociedade igualitaria.

Afixado por: pedrojosesilva em outubro 28, 2004 06:46 PM

Penso que quanto às questões que coloca, não há dúvidas. O importante é centrarmo-nos no doente alvo dos nossos cuidados. Se o doente for conhecido de certa forma e gostar de ser tratado assim, a sua vontade deve ser respeitada, obviamente.
Conto-lhe um caso que se passou com o meu pai há vários anos. Nessa altura o meu pai estava ventilado e os médicos insistiam em tratá-lo pelo 1º nome, coisa que nunca aconteceu ao longo da vida dele. A determinado momento pediu algo para escrever e disse: «chamo-me SANTOS e tenho muita sede». Os médicos pediram desculpa por não darem importância à forma como o doente costuma (e gosta) de ser tratado e guardaram o pedaço de papel para lembrar e evitar que tal episódio se repetisse.

Afixado por: Cris em outubro 25, 2004 08:24 PM

Três comentários apenas:
1 - Chamar alguém pelo nome que ele/ela gosta de ser tratado pode passar pelo título, grau ou designação profissional - há-de variar com o caso, ous eja, com as pessoas, não?!;
2 - quanto aos «outros» doentes, é uma questão de reparar como «eles» se tratam entre si, como se chamam uns aos outros... Pode até vir a dar ideia que os «doentes-vizinhos» se respeitam mais do que parece (e dos que os profissionais pensam).
3 - Se eu tratar alguém de uma certa forma - por exemplo, um médico do serviço - e essa pessoa fôr internada no «meu» serviço, como me dirijo a ela, que é a mesma pessoa, num contexto diferente?
Finalizando, lembro-me de uma carta de um conhecido clínico (já falecido)em que agradecia os cuidados, o atendimento, etc, e o único reparo era ter voltado a ser chamado, depois de mais de 30 anos, «Sr. Manuel».

Afixado por: Lucilia Nunes em outubro 25, 2004 05:17 PM

Isto faz-me lembrar a piada da recepção, em que a recepcionista pergunta:
- Doutor é primeiro nome ??

Beijinhos e boa semana de trabalho.

Afixado por: João em outubro 25, 2004 08:55 AM