abril 18, 2004

«Desespero atroz»

Quero dizer antes de mais, que tive uma crítica no meu último post, em que me recomendaram que "falasse de enfermagem" (se calhar falei muito mal ou sem razão do assunto em questão?!). Volto agora com um tema que talvez seja mais bem recebido... Para mim, um tema como outro qualquer.
Apesar de ser enfermeira e passar mais de metade da minha vida num hospital, interesso-me por muitos assuntos não directamente relacionados com a minha profissão. Na criação deste blog também ninguém se comprometeu a falar exclusivamente de enfermagem (retalhos da vida de três enfermeiras...)
Fico-me por aqui. Vamos ao post que se faz tarde.

Assisti há uns dias a uma cena (perdoem-me a expressão, mas nem sei como lhe hei-de chamar)... Assisti a algo que excede todos os parâmetros do razoável!
Uma adolescente de 15 anos em sofrimento atroz (sim, porque acredito que só alguém nestas circunstâncias consegue gerar tal situação!), surge no hospital com uma história de tumor do pâncreas diagnosticado um mês e meio antes. Vinha com uma carta dirigida à mãe e que apresentou. Dizia, entre outras coisas, que se deveria dirigir ao nosso hospital, para ser submetida a quimioterapia. Vinha com o cabelo rapado, uma pré-adaptação para a quimioterapia, segundo ela. A carta fazia uma chamada de atenção alarmante para a sua pessoa: não deveria ser contrariada e dever-lhe-ia ser disponibilizado todo e qualquer apoio, «até mesmo porque, um bem-estar psicológico beneficia sempre um bem-estar físico».
Na leitura da referida carta, apesar dos muitos termos técnicos utilizados e do relacionamento efectuado entre vários itens e que faziam algum sentido, surgiram dúvidas aos profissionais, pois alguma da linguagem utilizada não era a habitual num técnico de saúde.
Contactado o hospital de origem, fomos informados de que o nome do indivíduo que tinha assinado a dita carta, não existia. Fora tudo forjado!

Como é possível que alguém esteja tão desesperado ao ponto de conseguir simular tal situação? E como foi possível que aquela família não se tivesse apercebido de nada? Que tenha encarado tudo com normalidade?

Publicado por geraldinha em abril 18, 2004 09:40 PM
Comentários

Pois, concordo com o que diz em relação ao "sofrimento atroz". Só isso pode explicar tal maquiavélico plano... ou isso ou um acentuado "nível de loucura" que pretende chamar sobre si uma atenção porventura negada. Será que essa jovem adolescente mediu bem as consequências do que estava a fazer? É incrível que aconteçam casos assim... e mandando a estatística, que os nossos governantes tanto gostam de usar às urtigas, um caso destes, JÁ é DEMAIS.

Afixado por: João em abril 19, 2004 04:11 PM