maio 17, 2004

desabafos

Há duas semanas adoeci. Antes de completamente recuperada resolvi regressar ao trabalho, até porque antevia uma semana complicada, com acções de formação de permeio, nas quais tinha aceitado participar.
No 3º dia do meu regresso, começaram umas obras de instalação de ar comprimido e oxigénio no meu serviço. No 4º dia, após terem usado umas tintas estranhas, senti-me mal: os meus olhos ardiam e a garganta latejava. Pedi por favor, para continuarem as obras mais tarde, ao que alguém me respondeu que não seria possível pois o hospital não pagava horas extraordinárias, pelo que os trabalhos teriam que ser efectuados no horário de expediente...
Fiquei novamente doente mas, com alguma dificuldade, consegui cumprir com o que tinha assumido.

O que eu estranhei foi ninguém ter reclamado. Os doentes amontoaram-se no corredor e numa pequena sala enquanto as obras decorriam. Foram expostos aos mesmos produtos químicos e poeiras que eu, não foram condignamente tratados e ninguém teve clarividência suficiente para pôr termo à situação.
Quando não se ostenta um sorriso no rosto, quando não se resolve um problema atempadamente, por tudo e por nada, os olhares de reprovação caem sobre nós e todos reclamam. Nesta situação acharam normal aspirarem poeiras, serem expostos a cheiros intensos e desagradáveis enquanto se acotovelavam num espaço exíguo.
Que ideia terão os doentes dum bom atendimento? É que ser bem tratado não significa ser rapidamente atendido.

E que lógica é esta que pretere os interesses e o bem-estar dos doentes a favor de questões de índole economicista? Que cidadãos somos nós quando consentimos que nos tratem assim?

Publicado por Cris em maio 17, 2004 12:29 AM
Comentários

Gosto da indignação. Porque quem "não sente...."
A lógica desprovida dela das teorias economicistas - que se têm revelado um fracasso para os bolsos de todos nós e um sucesso pleno para os Mellos, p. ex - de entregar a saúde ao sector privado e o consequente desmantelar de um estado que deveria assegurar a saúde de quem paga impostos - e muitos. - E caros! - remeteter-nos-ía para uma longa conversa.
Indigno-me contigo.
Beijos

Afixado por: LetrasAoAcaso em maio 18, 2004 06:08 PM

Gosto de te ver indignada.
Logohoje que se comemora o dia da cidadania. Mas exercem essa mesma cidadania, os porugueses? - Não creio. - Spbre o sistema de Saúde muito haveria a dizer. Tenho, nas minhas crónicas jornalistícas denunciado tudo isso.
Mas devo ser uma das meia dúzia de vozes que "clamam" no deserto.

Beijos e as tuas melhoras.

Afixado por: LetrasAoAcaso em maio 18, 2004 06:05 PM

Gostei do Blog!
Gostei do artigo!E da frontalidade!
Parabens!

Afixado por: Zeus em maio 18, 2004 05:42 PM

é a lógica de um país onde as pessoas não protestam. até um simples livro de reclamções as assusta

Afixado por: jpt em maio 17, 2004 09:46 PM

Cara Sofia: Muito obrigada pelas suas palavras. Fico muito feliz em saber que o nosso blog consegue dar alguma voz à enfermagem. Amigo João: Embora estes desaires da saúde não sejam a regra, há muitas excepções que permitem que a qualidade de vida de muitos utentes seja seriamente afectada. Felizmente vão existindo muitos profissionais preocupados e empenhados para que isso não aconteça. P.S. Estou melhor. Muito obrigada e muitos beijinhos

Afixado por: Cris em maio 17, 2004 02:25 PM

Tomei conhecimento deste blog atraves do Jornal de Enfermagem e fiquei agradavelmente surpreendida com a diversidade de assuntos abordados.
Parabéns pelo espaço e pela voz que vão dando a esta classe profissional.

Afixado por: Sofia em maio 17, 2004 01:44 PM

Isto é o que se passa num país onde os médicos são aconselhados a não prescrever um exame de diagnóstico mais apurado, porque tal implica gastar mais um pouco.
Isto é o que se passa num país onde certos cuidados higiénicos "obrigatórios" nos hospitais de grande afluência, são negligenciados por falta de verbas ou para apresentarem no relatório anual uma margem de maior lucro.
Isto é o que se passa no país onde o pessoal médico faz inúmeras horas extra sem ser remunerado...
Isto é o que se passa num país onde o dinheiro e a apresentação de resultados vale mais que a vida humana.
E no final das contas... o que valem 10 ou vinte mortes se a instituição conseguiu um lucro de alguns milhares de euros!?? É lamentável.

Ps: as melhoras. Beijinho!

Afixado por: João em maio 17, 2004 01:12 PM